Comunicação
equivocada, crise à vista
É
verdade que a evolução do mercado, dos
meios de comunicação e da consciência
da sociedade a respeito de seus direitos como consumidora
e cidadã traz grandes oportunidades para as empresas.
Mas há também um outro lado. Essas empresas
precisam ficar cada vez mais atentas às suas
atividades, porque qualquer deslize (seja ele grave
ou não) pode custar caro à sua imagem.
Vamos
lembrar de alguns exemplos. Em 1984, a Union Carbide,
uma das maiores indústrias químicas do
mundo, foi responsável pelo vazamento de um gás
letal (o isocianato de metila) que provocou a morte
de 3.400 pessoas em Bopal, na Índia. Em 1986,
houve o acidente com a usina nuclear de Chernobyl, na
então União Soviética. Em 1989,
o navio Exxon Valdez bateu num imenso iceberg, na costa
do Alasca, deixando escapar 260 mil barris de petróleo.
Todos acidentes de perfil "ambiental".
Apesar
da seriedade de todos eles, o caso Exxon é considerado
"um clássico", não por sua gravidade
- até porque os 260 mil barris não foram
nem de perto um dos maiores desastres do gênero.
Estima-se que esse tenha sido o 30° em impacto ambiental,
mas foi talvez o primeiro em impacto de imagem. Uma
imagem muito mais difícil de limpar do que a
costa do Alasca, manchada de negro pelo óleo.
Mas por que isso aconteceu? Foram inúmeros erros.
Primeiro,
a demora em se comunicar. Quando o fez, a empresa minimizou
o ocorrido, alegando que os danos ambientais eram pequenos.
Depois, tentaram responsabilizar o comandante do navio
(e a opinião pública ficou ainda mais
contra a empresa, que visivelmente jogava um único
cristão para ser comido pelos leões na
arena da mídia). Para piorar, perguntada se seu
presidente daria uma declaração a respeito,
a empresa respondeu que ele "não tinha tempo
para essas coisas". Não satisfeita, a Exxon
(na época, uma empresa de 80 bilhões de
dólares!) tentou fazer lobby contra a aprovação
de uma lei (Oil Pollution Act) que surgiu como conseqüência
justamente desse acidente. Resumo da conta: um prejuízo
superior a 4 bilhões de dólares.
Mas,
se isso foi em 1989, imagine como seria hoje, com a
velocidade da comunicação proporcionada
pela Internet, celulares com câmera, SMS, YouTube,
Skype, Orkut, messengers, webcams e outros; como seria
na sociedade atual, mais atenta ao comportamento das
empresas? Uma campanha difamatória pode atravessar
o mundo em minutos, alimentada pelo simples fato de
que, agora, somos todos também criadores ou reprodutores
de conteúdo. Nos dias atuais, até mesmo
um esforço de marketing mal planejado pode causar
grandes problemas a uma empresa. Principalmente se subestimar
a inteligência de seus consumidores e o poder
dos novos meios de comunicação.
No
final de 2006, dois jovens americanos criaram um blog
com a intenção de “ajudar o maior
número possível de crianças e adolescentes
a conseguir que seus pais lhes dessem, de presente de
Natal, um PSP” (videogame portátil da Sony).
O jeito exageradamente “descolado” de escrever
dos dois jovens, com incontáveis erros de ortografia
e digitação e saturado de gírias,
chamou a atenção dos visitantes do blog.
Os dois, aparentemente, não escreviam sequer
uma palavra de forma correta e, no entanto, vez por
outra, utilizavam expressões rebuscadas, escritas
com grafia irretocável.
A
farsa não chegou a durar duas semanas. Bastou
que um visitante desconfiado olhasse as informações
de registro do blog – algo nada difícil
de se fazer – para descobrir que ele havia sido
criado, na verdade, por uma agência de propaganda
e marketing. Os milhares de comentários, que,
antes mesmo da farsa ser revelada, já acusavam
a Sony de tentar enganar seus consumidores, foram de
mal a pior. Resultado: a maioria dos visitantes disse
estar muito satisfeita por não ter comprado o
PSP, afirmou que nunca mais compraria outro produto
da empresa e que ainda iria incentivar todos os seus
conhecidos a fazer o mesmo. A Sony, sem outra saída,
teve que confessar o terrível equívoco
e pedir desculpas a todos.
A
sociedade está mais atenta, mais organizada,
e ainda conta agora com poderosos recursos de troca
de informação, a um clique de atingir
a imagem de sua empresa. Será que ela está
preparada para essa gestão de crises "em
tempo real"?
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